|
|||||||||||||||||||||||||||
![]() |
| |
|
O primeiro hit dela é um tributo involuntário a Oscar Wilde que nem chega a ser exatamente um dos autores de cabeceira dessa leitora voraz. O que Stella Ferraz e o irrequieto irlandês têm em comum é a paixão pelo azul-cobalto. Wilde alinhava seus vasos, copos, vidros, garrafas, recolhidos caprichosamente em leilões e em antiquários, com a devoção de quem preparava um altar particular, em seu flat de Oxford, onde cursava a universidade, atribuindo aquele amontoado unânime de peças de azul profundo o duplo efeito de transe e repouso. “Quase sempre acho difícil viver à altura de minha porcelana azul”, disse Wilde, zombando de sua própria e dispendiosa mania. O cobalto entrou na vida da ceramista tanto pelos atrativos da estética quanto pelas oportunidades do mercado. No Brasil, são raros os profissionais que podem se dar o luxo de trabalhar com óxidos puros. Os derivados monóxidos e dióxidos são mais acessíveis aos bolsos. Stella não poupa em investimento e em talento. Trabalha com cobalto e cobre de genuína pureza, o que explica a especial densidade cromática de seus trabalhos. Na verdade, por muito tempo ela viveu uma condição ambígua, de senhora e de prisioneira do cobalto. “As pessoas tinham a impressão de que eu era uma espécie de samba de uma cor só”, brinca ela, celebrada, porém, por um dos mais cobiçados prêmios de design no Brasil, aquele do Museu da Casa Brasileira, em 1996, pelo ecletismo de seus experimentos em azulejos. Até hoje o tema do azul parece o maior appeal para a clientela, embora Stella Ferraz, se tivesse de se espelhar em alguém, estaria muito menos identificada com aquela fase pré-cubista de Picasso e muito mais com a complexa palheta de Cézanne. Por ora, ela confessa ter dificuldades técnicas na busca do melhor amarelo e do melhor laranja. “O bom ceramista há de entender isso, as cores quentes volatilizam em alta temperatura”, diz Stella Ferraz, que se recusa, por razões de consciência ecológica, a recorrer ao chumbo capaz de fixar as tonalidades mais fugidias. Todo esse acervo de referências de Stella Ferraz não é gratuito. Ela é uma pesquisadora insaciável, com a mala sempre à mão para uma daquelas viagens que unem o útil ao agradável. Diante dos azulejos de Gaudí, na Casa Batlló, em Barcelona, teve uma crise de choro. Na Alhambra, apalpou as paredes, com carícias de amor. Mesquitas marroquinas, vilarejos portugueses e fábricas de faiança em Positano já entraram na sua rota de aprendizado autodidata, assim como a atmosfera impregnada de arte e de história de lugares como o La Colombe d’Or, de Saint Paul de Vence, jóia da Provença onde os azulejos turquesa dos banheiros, pintados a mão, despertaram em Stella o instinto bestial de lambê-los, voluptuosamente. Já que estava nas vizinhanças, foi a Roussillon comprar aqueles pigmentos ocres que só por lá existem. Autodidata ela é quando exercita sua curiosidade em passeios pelo mundo afora, mas Stella Ferraz reconhece que exerce seu ofício com o amparo de uma formação bem acima da média. “Desde criança”, insiste ela. Mãe e avó artistas, fascinadas pelas aquarelas, Stella também começou por aí, rabiscando paisagens, mas logo já estava cortando barro no ateliê de Maria Célia Calmon. Cursou design industrial na principal escola particular de São Paulo, a IADE, e na faculdade, Mackenzie, e foi estudar cerâmica na Sir John Cass School, em Londres, onde passou uma temporada ao se casar. Mas foi no ceramista Megumi Yuasa que ela encontrou o mestre no sentido adequadamente oriental da palavra. “Ele fazia um barro lindo, meio rosado, cortava com arame”, lembra. Um dia, o mestre se queixou que as alunas não persistiam; que tinham medo de que aquilo lá não lhes desse o sustento; que por abandonar a cerâmica. Stella arriscou: “Eu, não quero ser ceramista”. Megumi a fez pensar: o jeito era juntar o prazer da cerâmica com uma maneira de se bancar. Por exemplo, dando aulas para crianças. “Então é isso?” perguntou Megumi, com aquele ar de sábio oriental. “Então, o que você ainda estar fazendo aqui?” Dias depois, em San Francisco, Califórnia, Stella comprava o torno Brent Modelo C que até hoje a acompanha, relíquia ainda produtiva. Para a artista, o sucesso individual de um ceramista pode gerar a impressão equivocada de que, no Brasil, isso só acontece por mérito próprio. “Ao contrário, temos uma maravilhosa tradição de trabalho em barro”, diz ela. Stella Ferraz acha justo até mesmo falar numa “escola brasileira de cerâmica”, produto do sincretismo de três vertentes poderosamente distintas. Há o trabalho do brasileiro-nativo, em barro escuro e com muitos ornamentos, típico da ilha de Marajó, na boca do rio Amazonas. Há a vertente do caboclo, das tigelas de estilo arcaico do sertão, os potes e os alguidares, sem falar na oficina do Mestre Vitalino, com suas figurinhas representando tipos e ofícios do Nordeste. O design escandinavo, com sua densidade clean, é também uma referência óbvia. E, finalmente, não dá para esquecer que está no Brasil a maior colônia de japoneses fora do Japão e que a cerâmica do Japão é um capítulo à parte na reconhecida artesania de Stella Ferraz e, de resto, na formação profissional dos melhores profissionais brasileiros. Stella bebeu de todas essas fontes mas, sem querer ser nada além de ceramista (assim como não se diz designer, ela não cede à tentação da escultura), ela cultiva, em meio às referências de viagem e às influências de raiz, o direito de ter sempre o toque pessoal aquela qualidade que distingue quem tem uma obra de quem não tem. Das peças de Mrs. Ferraz se diz, automaticamente: isso é Stella Ferraz. O paradoxo é que ela produz utilitários, azulejos, pastilhas, em linha de montagem mas, ainda assim, consegue que cada peça seja única, “já que minha ferramenta é meu próprio dedo” e, de mais a mais, ela adora brincar de imperfeição. Recentemente, observou uma linha de aparelho de chá que saía do forno. Achou muito normalzinho. Ela, que se orgulha de ser básica, no estilo e nos materiais (por mais de dez anos só trabalhou com cinco esmaltes), foi lá e, com uma tesoura, deu uma picotada na xícara, no bule e no pires. “Os contornos ganharam vida própria”, diz ela. A nova linha se chama Origami e, não por acaso, foi parar na mais fancy das sushi houses de São Paulo. Seu ateliê de 400 metros quadrados, no bairro de Vila Olímpia, guarda, graças à delicadeza do projeto dos arquitetos Augusto Lívio Malzoni e Gil Mello, a informalidade de uma oficina de artesanato e, de vez em quando, serve de espaço para artistas convidados. Basicamente é uma fábrica, sem cara de fábrica, com equipamento apto à queima e esmaltação a 1300 graus centígrados e todos os recursos dignos de um ceramista do primeiro mundo. Sua produção, toda ela, é rapidamente vendida no Brasil. Mas ela se confessa seduzida pelo canto de sereia do mercado externo. “É hora de ter um cantinho, para poucos e bons, numa loja de qualidade em algum lugar do exterior. Stella Ferraz não é do tipo que fica parado, esperando que os sonhos se realizem. Ela põe a mão na massa quer dizer, no barro. |
|||