 |
|
 |
| CERÂMICA - ARTE DO IMPREVISÍVEL |
| Arte & Ofício reportagem
de Siomara Raggiante |
 |
Moldagem, pintura, queima... e o barro se transforma,
ora para servir a mesa, ora para enfeitar a casa. Este universo tão
particular da cerâmica revela-se aqui pelas mãos de Stella
Ferraz, ceramista de São Paulo.
Ofício
dos mil segredos, a cerâmica resulta de um processo pouco preciso,
que muda conforme a temperatura, a cada queima, a cada pincelada de
esmalte. "Uma nova peça só existe de fato se resistir
a todo o processo", declara a ceramista Stella Ferraz, conhecida
por sua linha refratária e utilitária, feita e pintada
a mão.
Fazer cerâmica é como participar de um ritual de transformação,
repetido há milênios. Maleável e gostoso de lidar,
o barro vai sendo moldado com as mãos e adquire a espessura
desejada numa mesa de placa, onde é prensado. Depois, pequenas
ferramentas ajudam a arrematar as bordas e a executar ranhuras. Outra
etapa é a da espera. São necessárias entre 8
a 24 horas para levar a peça ao forno, onde será queimada
1.3000 graus, processo chamado de alta temperatura.
A primeira queima é batizada de biscoito, em função
da aparência esbranquiçada. É sobre esse artefato
que se faz o desenho e a pintura com esmalte à base de minerais
naturais. Uma nova queima vai fixando os esmaltes. E assim sucessivamente,
até se obter a tonalidade final. Nesse meio tempo, a peça
corre inúmeros riscos de trincar ou rachar, em função
da temperatura. Por isso, é praticamente impossível
fazer duas peças exatamente iguais. Os riscos do processo fazem
o artesão considerar margens razoáveis de perdas, peculiaridades
que fazem o dia-a-dia imprevisível.
Apaixonada por este universo, Stella Ferraz encantou-se com a cerâmica
há 17 anos, quando fez seu primeiro curso em Londres, no Sir
John Cass School or Arts. Entre uma interrupção e outra,
aprendeu com o ceramista Megumi Yuasa, que lhe aconselhou iniciar
carreira solo. Então, com seu próprio forno, Stella
passou a fazer suas primeiras peças. "Eu me lembro que
criei uma tigela, ainda influenciada por uma peça clássica
lá de casa. Foi quando descobri a importância do utilitário."
Com a experiência, o esmalte atóxico foi sendo melhorado
e ela passou a trabalhar em preto, branco, areia, cinza, verde e vermelho.
Mas é o azul profundo a marca diferencial em seus pratos, potes,
travessas, tigelas, vasos, cumbucas e jarras. Tudo útil e durável.
Em seu ateliê, é delicioso assistir à mágica
transformação. "Adoro atender as pessoas, ir moldando
enquanto converso. É um ateliê vivo, muito semelhante
aos existentes na Escandinávia", admite Stella. |
|