FORA DE SÉRIE – REVISTA JP MODO DE VIDA (NOV/2008)
ECOS DO BRASIL - CADERNO CASA& (FEV/2008)
A CERÂMICA DE STELLA FERRAZ
CERÂMICA - Arte do Imprevisível
STELLA, BARRO & CIA
ALTAS TEMPERATURAS

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CERÂMICA - ARTE DO IMPREVISÍVEL
Arte & Ofício – reportagem de Siomara Raggiante
Moldagem, pintura, queima... e o barro se transforma, ora para servir a mesa, ora para enfeitar a casa. Este universo tão particular da cerâmica revela-se aqui pelas mãos de Stella Ferraz, ceramista de São Paulo.

Ofício dos mil segredos, a cerâmica resulta de um processo pouco preciso, que muda conforme a temperatura, a cada queima, a cada pincelada de esmalte. "Uma nova peça só existe de fato se resistir a todo o processo", declara a ceramista Stella Ferraz, conhecida por sua linha refratária e utilitária, feita e pintada a mão.

Fazer cerâmica é como participar de um ritual de transformação, repetido há milênios. Maleável e gostoso de lidar, o barro vai sendo moldado com as mãos e adquire a espessura desejada numa mesa de placa, onde é prensado. Depois, pequenas ferramentas ajudam a arrematar as bordas e a executar ranhuras. Outra etapa é a da espera. São necessárias entre 8 a 24 horas para levar a peça ao forno, onde será queimada 1.3000 graus, processo chamado de alta temperatura.

A primeira queima é batizada de biscoito, em função da aparência esbranquiçada. É sobre esse artefato que se faz o desenho e a pintura com esmalte à base de minerais naturais. Uma nova queima vai fixando os esmaltes. E assim sucessivamente, até se obter a tonalidade final. Nesse meio tempo, a peça corre inúmeros riscos de trincar ou rachar, em função da temperatura. Por isso, é praticamente impossível fazer duas peças exatamente iguais. Os riscos do processo fazem o artesão considerar margens razoáveis de perdas, peculiaridades que fazem o dia-a-dia imprevisível.

Apaixonada por este universo, Stella Ferraz encantou-se com a cerâmica há 17 anos, quando fez seu primeiro curso em Londres, no Sir John Cass School or Arts. Entre uma interrupção e outra, aprendeu com o ceramista Megumi Yuasa, que lhe aconselhou iniciar carreira solo. Então, com seu próprio forno, Stella passou a fazer suas primeiras peças. "Eu me lembro que criei uma tigela, ainda influenciada por uma peça clássica lá de casa. Foi quando descobri a importância do utilitário." Com a experiência, o esmalte atóxico foi sendo melhorado e ela passou a trabalhar em preto, branco, areia, cinza, verde e vermelho. Mas é o azul profundo a marca diferencial em seus pratos, potes, travessas, tigelas, vasos, cumbucas e jarras. Tudo útil e durável. Em seu ateliê, é delicioso assistir à mágica transformação. "Adoro atender as pessoas, ir moldando enquanto converso. É um ateliê vivo, muito semelhante aos existentes na Escandinávia", admite Stella.